"Ser marxista é, antes de mais nada, ser anticapitalista, ou seja, lutar pela construção de uma sociedade sem classes, que suprima a exploração do homem pelo homem e a propriedade privada dos grandes meios de produção, criando condições para que as relações entre os homens sejam fundadas na solidariedade e não no egoísmo do mercado. Claro, ser marxista não é repetir acriticamente tudo o que Marx disse. Marx morreu há cerca de 120 anos e muita coisa ocorreu desde então. Mas, sem o método que ele nos legou, é impossível compreender o que ocorre no mundo. Ele nos disse que o capital estava criando um mercado mundial, fonte de crises e iniqüidades, e nunca isso foi tão verdadeiro quanto no capitalismo globalizado de hoje. Falou também em fetichismo da mercadoria, na conversão do mercado num ente fantasmagórico que oculta as relações humanas, e nunca isso se manifestou tão intensamente quanto em nossos dias, quando lemos na imprensa barbaridades do tipo 'o mercado ficou nervoso'." (Carlos Nelson Coutinho)

quarta-feira, 25 de abril de 2012

Revolução Sandinista - Nicaragua



Unindo cristãos e marxistas, a FSLN - Frente Sandinista de Libertação Nacional, derrotou em 1979 as forças leais a ditadura somozista(ditadura corrupta e sanguinaria, responsável por cerca de 50 mil mortos), vencendo a guerra civil. Ao contrário de Cuba, os sandinistas implantaram um socialismo radicalmente democrático, com pluralismo partidario, liberdade de imprensa, etc. A Revolução Sandinista em momento algum impediu o funcionamento da oposição burguesa democrática(representada por Violeta Chamarro, viuva do jornalista Pedro Chamorro, assassinado pela ditadura somozista).

Os sandinistas reconheciam que o socialismo não pode ser estabelecido por decreto, motivo pelo qual estabeleceram uma economia mista, onde os setores estratégicos da economia e os bancos foram estatizados, mas a propriedade privada nos demais setores economicos foi respeitada. Foi realizada a reforma agrária e implantado um programa de alfabetização popular.

O governo da Junta Provisória liderada pelos sandinistas ficou no poder até 1984, quando ocorreram eleições livres e o líder sandinista Daniel Ortega foi eleito presidente com 63% dos votos. Justamente por representar um socialismo com liberdade e democracia que a Revolução Sandinista foi tão combatida pelo imperialismo yankee, que patrocinou o exército terrorista dos chamados "CONTRAS", jogando a Nicarágua em uma sangrenta guerra civil, ao mesmo tempo que promoviam um bloqueio economico contra o país.

""Sem Somoza, a Nicarágua será livre!" No dia 17 de julho de 1979, depois de mais de dez anos de luta contra a ditadura dos Somoza (apoiada desde 1936 pelos Estados Unidos), a Frente Sandinista de Libertação Nacional (FSLN) chegava ao poder. A jovem revolução lança uma reforma agrária, uma campanha para alfabetizar 400 mil pessoas e um programa de saúde cobrindo todo o país. Nacionaliza propriedades do clã Somoza. Revolução original, sem o dogmatismo das precedentes, atrai inúmeras simpatias e cria uma dinâmica regional. "Se a Nicarágua venceu, El Salvador vencerá!", cantam os rebeldes do país vizinho. Na América Central, nascia uma grande esperança.

Washington vê com maus olhos o apoio de Havana – e, menos direto, da União Soviética – a um país que esteve durante muito tempo sob seu controle. Por isso, ainda em 1980, em sua luta contra o "império do mal", o presidente Ronald Reagan ordena um boicote, organiza, equipa e treina, através da CIA, uma oposição armada composta de ex-guardas somozistas refugiados em Honduras, os contra. Apesar da eleição presidencial vencida por Daniel Ortega (com 63% dos votos) no dia 4 de novembro de 1984 – quando mais de 500 observadores estrangeiros fiscalizaram a idoneidade do escrutínio – a agressão continuou. E foi condenada em 27 de julho de 1986 pelo Tribunal Penal Internacional de Haia, do qual Washington se apressou em denunciar a falta de competência. Emaranhada em escândalos, como o Irã-contragate (venda ilegal de armas norte-americanas ao Irã para financiar os contra), essa agressão faria 29 mil mortos e deixaria o país desestabilizado. "

(François Houtart; "Histórico e razões de uma derrota")


Cansados da violenta guerra civil, os nicaraguenses votaram em Violeta Chamorro, lider da oposição burguesa democrática, nas eleições presidenciais de 1990, encerrando assim com a Revolução Sandinista.

"No final da década de 80, o projeto revolucionário se desintegra. Sufocado pelo boicote norte-americano, o país teve que se militarizar sob a pressão da economia mundial, impondo medidas de austeridade. Embora tenha beneficiado os camponeses sem terra, a reforma agrária esqueceu uma parte dos pequenos camponeses que passariam a ser uma base social dos 'contra'. Apesar da presença de três padres no governo, a Igreja católica, representada por Dom Obando y Bravo, arcebispo de Manágua, e apoiada pelo papa João Paulo II, demoniza o regime e marginaliza os cristãos comprometidos com o processo revolucionário.

Para surpresa da Frente Sandinista, que não se preparara para isso, as eleições de fevereiro de 1990 resultam na derrota dos sandinistas. Apesar das muitas conquistas sociais (educação, propriedade da terra, alimentação, saúde, seguridade social, moradia), as pessoas não toleram mais a guerra, o recrutamento militar obrigatório de uma parte dos jovens, as medidas de austeridade e o aumento do custo de vida. A oposição promete a paz, o fim do boicote norte-americano e a prosperidade. Os eleitores escolhem Violeta Chamorro (54,2% dos votos). Derrotados, a FSLN e seu candidato, Daniel Ortega, aceitam entregar o poder, democraticamente."

(François Houtart; "Histórico e razões de uma derrota")


Apesar das dificuldades do pós-guerra, um acordo implícito entre Violeta Chamorro e os dirigentes sandinistas permitiu uma transição relativamente pacífica. Entretanto o novo governo colocou em prática uma política social devastadora. A política neo-liberal, os programas de ajuste e de abertura do mercado deixaram as classes populares à beira da exaustão.

Mas hoje, os sandinistas voltaram ao poder pelo voto, com o governo do presidente Daniel Ortega, que busca resgatar os valores dessa revolução e assim combater a miséria promovida pelas políticas neo-liberais adotadas no país após 1990.
 

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